A Contabilidade é para o empresário.

É interessante observarmos que o método contábil praticado hoje existe há mais de 500 anos e teve na sua origem a intenção de servir de ferramenta auxiliar ao controle das operações dos comerciantes de Veneza, no período de transição entre o final da Idade Média e o início do Renascimento. Na verdade, o método das partidas dobradas foi apurado durante os séculos que antecederam o “Tractus” publicado em 1494 pelo Frei Luca Paccioli, que consistia basicamente numa cartilha de procedimentos que valorizava a necessidade de controle do patrimônio e estava voltada para os donos dos negócios da época.

A transformação da operação mercantilista em industrial, o desenvolvimento dos meios de produção, dos mercados e da forma de geração e de acumulação de riqueza fizeram com que a Contabilidade também se desenvolvesse até chegarmos ao meio eletrônico existente hoje, sem, contudo, haver a possibilidade de abandonar o método das partidas dobradas – o debitar e creditar.

A Contabilidade, que nasceu da necessidade de seu principal usuário – o dono do negócio –, em determinado momento tornou-se o instrumento sobre o qual o Estado passou a praticar a tributação e, aos poucos, com seu poder normativo, foi tomando-a para si.

Atualmente, no Brasil, para muitos empresários, a Contabilidade é vista apenas como uma obrigação fiscal acessória. A sua utilidade como ferramenta de controle e de gestão é desprezada, a ponto de a permissão para as pessoas jurídicas tributadas pelo imposto de renda com base no lucro presumido e para as pequenas e microempresas e optantes pelo Simples substituírem a escrituração contábil, feita em livro diário, pela escrituração de livro caixa, que utiliza partida simples, ser apontada e aceita como um procedimento de simplificação de atos administrativos e fiscais que beneficia o empresário.

A Contabilidade, quando realizada dentro de padrões técnicos adequados, mesmo para os pequenos negócios, pode ser útil e auxiliar na organização das operações e no controle do patrimônio. Qualquer simplificação que esteja aliada à perda de informação e à dificuldade de controle não pode ser vista como benefício. Isso nega a própria origem da Contabilidade.

Por exemplo, quem abandona o livro diário e passa a escriturar o livro caixa, além de perder um controle mais apurado de suas atividades, não terá possibilidade de calcular sua margem de lucro e pagará imposto sobre o lucro sem saber se sua operação é lucrativa.

Nas grandes empresas, em que muitas vezes os recursos são abundantes, a Contabilidade serve de parâmetro para a comparação entre os dados orçados e os dados reais. Os resultados obtidos e os desvios favoráveis e desfavoráveis são cuidadosamente estudados, para que se possa tomar decisões com menor nível de risco. Nas empresas de menor porte, em que os recursos são mais escassos, podemos aplicar sistemas de controle menos sofisticados e adequados às suas necessidades de gestão, mantendo-se a base de registro mais confiável, que, sem dúvida, é a Contabilidade, pois é preciso saber tirar proveito dela e não abandoná-la sob o pretexto de simplificação de procedimentos.

Lembramos, insistentemente, que a Contabilidade não nasceu para o Fisco, nem é de uso exclusivo do Estado.

Fonte: O Tributário Edição 14 CENOFISCO

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